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“Até ao final dos anos quarenta (…) haverá apenas a destacar, entre o escasso número de artigos publicados até então, a circunstância de já em 1933 haver sido publicado o primeiro ensaio de Delfim Santos em que o filósofo dinamarquês surge como uma das figuras de referência. Autor de vasta bibliografia em que predomina a exposição de um pensamento existencial marcado pela fenomenologia e pela influência de N. Hartmann e M. Heidegger, Delfim Santos publicaria até ao final da sua vida outros sete artigos nos quais aborda o pensamento de Kierkegaard, sem que nenhum deles seja, contudo, de exclusiva incidência em Kierkegaard; porém, nos momentos em que com maior ou menor ênfase menciona o pensamento do filósofo, Delfim Santos atribui-lhe um papel relevante no desenvolvimento temático de cada um desses artigos, com especial incidência em tópicos como a ironia, a subjetividade, a angústia, o desespero, a influência em M. Heidegger e em E. Husserl, e nos existencialistas franceses”.

Elisabete de Sousa, Kierkegaard em Portugal, Um Dinamarquês Universal – Søren Kierkegaard, Lisboa: BNP, 10.

Sobre este resumo da relação Kierkegaard / Delfim Santos haveria a observar o seguinte: a primeira chamada de atenção de Delfim Santos para Kierkegaard sai na revista Presença em 1933 e reporta-se, sem o nomear, ao Diário de um Sedutor como exercício de análise experimental e fria do amor (que serviu durante a sessão inaugural da mostra de ontem para interessantes aproximações ao caso Ofélia de F. Pessoa). Tinha então Delfim Santos 26 anos e ainda não viajara nem sabia alemão, algo que só acontecerá em 1935, pelo que é possível que tenha usado a tradução portuguesa do Diário de 1911, de Mário de Alemquer, ou outra francesa.

Entre este texto e o ano de 1943, a que pertence “O Valor da Ironia” – segundo texto da mostra – foi esquecida a tese de doutoramento Conhecimento e Realidade, Lisboa: Imprensa Portuguesa, 1940, onde existem 3 observações importantes sobre Kierkegaard: terá sido esta a primeira tese de doutoramento portuguesa a referir-se à sua obra?

Por fim, no parágrafo de Elisabete de Sousa falta ainda a conferência de Delfim Santos sobre Kierkegaard, que está atestada documentalmente em carta de que lhe facultei cópia e que terá sido a primeira que em Portugal teve por tema o pensador dinamarquês. Um texto a recuperar.

Este pioneirismo recorrente de Delfim Santos deve-se à sua dupla inserção: mental e culturalmente viveu num tempo europeu que ele conhecera nas fontes, junto aos grandes pensadores com quem convivera e trabalhara; porém, vivencialmente debatia-se com um meio cultural português estagnado e muito desfasado do que entretanto acontecia na Filosofia, na Ciência, na Pedagogia por esse mundo fora. O eterno preço a pagar pela periferia lusitana.

Quanto ao “pensamento existencial” de Delfim Santos: seria melhor escrever que foi expositor das correntes da filosofia da Existência (e não só do Existencialismo à la mode nos anos 50) por solicitação do seu tempo e não por adesão própria, como ele mesmo teve ocasião de o dizer. Acontece que quando Delfim Santos expunha Platão davam-no como platónico, se discorria sobre Aristóteles era peripatético, se falava de Séneca já o tinham por estoico, se sobre Montaigne era cético, e assim por diante, isso se devendo, conforme os testemunhos de seus alunos, mais ao poder de sedução da sua palavra e ao seu talento de professor do que a uma qualquer adscrição que não procurava, pois a veria como limitativa da liberdade do pensamento.

Domingos Monteiro, numa alocução na Academia das Ciências, descreveu bem essa ilusão criada no público e pelo público: “Dada a variedade dos seus interesses, a simpatia por vezes manifestada por doutrinas diversas e até opostas, Delfim Santos foi sucessivamente apodado – ele que detestava os rótulos – de platónico, aristotélico, hegeliano, bergsonista, existencialista, fenomenologista e não sei que mais. É possível que em determinados momentos da sua vida ele tenha sido cada uma destas coisas, mas o que ele foi sempre, e é isto que constitui a sua verdadeira grandeza, foi ele próprio”.

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A Biblioteca Nacional de Portugal e a Embaixada da Dinamarca promoveram a comemoração do Bicentenário Kierkegaardiano em sessão pública celebrada ontem nas instalações da BNP:convite_kierkegaard_expo

Infelizmente, o texto original do anúncio desta realização da Biblioteca Nacional (de Portugal?), – anónimo! mas em site de uma instituição pública que ao publicá-lo se torna responsável pelo seu conteúdo -, não fazia a menor menção à receção portuguesa de Kierkegaard, na qual, do ponto de vista universitário, Delfim Santos teve primazia absoluta. Continuava pois a “boa prática”, fomentada pelas instituições do Estado, de desprezar os valores portugueses e o trabalho dos pensadores portugueses, já que para as pessoas dessas instituições estão apenas lhes interessa o que vem de fora, o resto é para se omitir piedosamente. Após este protesto, Elisabete de Sousa comunicou-me gentilmente que o texto havia sido reformulado: versão atual aqui, ou em PDF.

Acontece que, além de Delfim Santos, outros nomes exteriores à universidade, como José Marinho e Álvaro Ribeiro, ou Adolfo Casais Monteiro (que só mais tarde veio a lecionar na universidade brasileira), todos de grande destaque nas letras da época, são omitidos desta “apresentação” de gosto duvidoso. Sabendo que a citada instituição é custódia dos espólios de Delfim Santos, de José Marinho e de Adolfo Casais Monteiro (além dos de outros kierkegaardianos, como um inexplicavelmente silenciado Vergílio Ferreira) é caso para nos interrogarmos sobre a perpétua impunidade de que goza a patológica autofobia que o Estado português tem em relação à cultura nacional: nem mesmo estimam aquilo que lhes foi confiado com a expressa condição de ser por eles valorizado.

Felizmente os pensadores portugueses não foram banidos do catálogo primorosamente editado pela mesma BNP: “Um Dinamarquês Universal: Søren Kierkegaard, Lisboa: Biblioteca Nacional, 2013“, com esmero gráfico a que só faltou a reprodução a cores das capas dos livros.

Três pequenos reparos: o título do texto de José Justo “Kierkegaard na Universidade de Lisboa” é pouco preciso pois ocupa-se do meritório trabalho desenvolvido nos últimos oito anos pelo Centro de Filosofia daquela instituição. Deveria ser pois “Kierkegaard no Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa” para poder excluir a referência à primeira presença do filósofo da Dinamarca nessa Universidade através de Delfim Santos, leitor atento de Kierkegard e desde 1943 a trabalhar naquela casa que tão pouco o estimou e estima.

Quanto à listagem dos textos delfinianos – exibidos em cronologia inversa, do mais recente para o mais antigo – seria preferível tê-los antes elencado de acordo com a ordem pela qual foram sendo publicados. Aliás, a totalidade da bibliografia, ainda que mantendo a divisão em monografias e artigos, ganharia em ter sido apresentada por ordem cronológica – certeiramente adotada para as traduções – pois ficariam assim mais claras, a um simples relance, precedências e influências. E o índice, que felizmente não foi esquecido na edição deste catálogo, possibilitaria a busca dos autores pelo nome.

Por último, lamenta-se a ausência da data de “A Filosofia como Ontologia Fundamental” que é de 1955, tendo sido a alocução inicial do I Congresso Nacional de Filosofia organizado pelos jesuítas bracarenses e que Delfim Santos inaugurou.  Curiosamente, nesse texto ninguém (por “ninguém” aludo à redação da Revista Portuguesa de Filosofia onde o texto conheceu a sua publicação original, ao Autor se provas lhe foram dadas a rever (?) e aos editores das “Obras Completas”) corrigiu o pequeno lapso onde se dizia “Kierkegaard, cujo centenário do nascimento este ano se comemora” e que deveria ser, evidentemente, “centenário do falecimento“.

O momento marcante do evento foi a bela evocação que um ainda em forma Eduardo Lourenço fez da relação entre Kierkegaard, o seu Pai e a sua noiva, que Guilherme d’Oliveira Martins complementou, situando o lugar do próprio Lourenço na receção portuguesa do escritor dinamarquês. Sobre esta segunda geração de universitários que se ocuparam de Kierkegaard, disse-nos em conversa privada Elisabete de Sousa, que com José Justo comissariou a exposição, da responsabilidade do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, e que foi a única, aliás, a referir-se a Delfim Santos ao usar da palavra durante a sessão:

“A receção delfiniana de Kierkegaard é totalmente diferente da de Lourenço e isso se deve a que Delfim Santos chegou à obra do dinamarquês por via das traduções alemãs, enquanto que para Lourenço ela lhe chegou pelas francesas. Seria fascinante um estudo da forma como essas duas línguas e culturas condicionaram as leituras feitas nesses dois momentos sucessivos”.

“É também curioso constatar que a via alemã não limitou afinal a receção delfiniana. Pelo contrário: os textos de 1933 e 1943 antecipam uma leitura já emancipada do universo luterano que ainda restringia muito as leituras alemãs, de cariz religioso, que de Kierkegaard se faziam no Entre-Guerras e durante a Guerra. Delfim Santos já apontava para um enquadramento de Kierkegaard na temática do humanismo e das filosofias da Existência, possivelmente pela influência, também nele pioneira, de Heidegger, enquadramento que, como sabemos, será a causa do enorme sucesso da obra de Kierkegaard no Pós-Guerra, nomeadamente pela releitura entusiástica da sua obra durante a voga dos existencialistas”.

O catálogo desta mostra recolhe no total 8 textos delfinianos onde Kierkegaard está presente: o segundo texto que figura no catálogo é “O Valor da Ironia” e ocupa-se mais demoradamente de Kierkegaard do que a primeira alusão feita uma década antes. É, como foi acima referido, de 1943, ano do ingresso do jovem assistente na Faculdade de Letras de Lisboa e em que também invocará Kierkegaard em “Ideário Contemporâneo”, apresentando-o a par de Nietzsche como expoente da reação romântica contra as Luzes.

Existem, claro está, muito mais textos onde se encontram alusões ao pensamento kierkegaardiano – que, não sendo de referir nesta listagem, teriam lugar apenas para provar o quanto essa leitura de Kierkegaard foi constante ao longo da reflexão delfiniana: são mais de 40 as páginas das Obras Completas de Delfim Santos que referenciam o nome do dinamarquês.

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Creio ter sido da iniciativa de Elisabete de Sousa, investigadora do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, a ideia da vitrine sobre Delfim Santos. Foi ela quem me solicitou a conferência inédita de Delfim Santos sobre Kierkegaard (ainda não localizada mas que estaria no espólio de João Bénard da Costa pois fora por este solicitada em 1966 à viúva de Delfim Santos para publicação na revista que ele então dirigia, O Tempo e o Modo) e foi a ela que eu forneci a relação das espécies kierkegaardianas do catálogo da Biblioteca de Delfim Santos. Espécies entretanto por ela referenciadas na Biblioteca da Faculdade de Letras de Lisboa e devidamente recatalogadas e em alguns casos enviadas para restauro, em outros expostas na própria mostra, onde se podia comprovar a profusa marginália crítica à obra kierkegaardiana pelo filósofo português. Sobre essa marginália Elisabete de Sousa anunciou-me que estaria a preparar uma edição própria, “A kierkegaardiana de Delfim Santos“, a que se espera juntar a conferência acima referida – e para tal iniciativa tem todo o meu apoio.

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Além da vitrine sobre Delfim Santos, a exposição conta com excelentes painés didáticos sobre a Dinamarca do tempo de Søren, sobre o homem, a obra e a sua influência em outros pensadores portugueses, com destaque para o próprio Lourenço. Uma oportuna iniciativa, bem lembrada e no momento certo, unindo-se à revivescência dos estudos kierkegaardianos na Dinamarca e um pouco por toda a parte, como é habitual acontecer aquando de efemérides.

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E, como sempre, a Biblioteca Nacional, detentora de múltiplos recursos tecnológicos, não cuidou sequer de registar as palavras ontem proferidas, em mais uma demonstração da incúria com que em Portugal a cultura nacional é tratada, nomeadamente no lugar onde se conservam algumas das supremas manifestações do seu espírito. Felizmente fi-lo eu, que as cederei aos organizadores se os registos dessas alocuções me forem solicitados expressamente para publicação em livro.

Já que foi na Presença que Delfim Santos, em 1933, escreveu pela primera vez em letra de forma o nome de Kierkegaard (e que talvez tenha sido a primeira revista literária portuguesa onde ele surgiu), faltaria explorar o muito que da angústia de Kierkegaard se encontra no teatro de José Régio. Sugeri a Elisabete de Sousa a pista de “Jacob e o Anjo“. Afinal não foi Régio, também ele, alguém que “utilizara a escrita como via de superação de uma vida amorosa mal-sucedida”? – Mário de Alenquer (1911) introd. a Diário de um Sedutor, trad. de M. A., Lisboa: Clássica.

SoerenK

publicada a correspondência delfim santos / edmundo curvelo

Um livro sobre o espólio do filósofo alentejano, onde também se publica a correspondência com Delfim Santos.

Curvelo

Um Génio Português: Edmundo Curvelo (1913-1954), Coimbra: Imprensa da Universidade, 2013, da responsabilidade de Manuel Curado e José António Alves (este último já co-editor, com Filipe Delfim Santos, da publicação do carteio dos jesuítas bracarenses para Delfim Santos), vem apresentar ao leitor um dos grandes filósofos portugueses da primeira metade do século XX. Estamos a falar de Edmundo Curvelo. Além disso, o livro revela vários inéditos recolhidos no espólio do autor português e a correspondência que manteve com alguns intelectuais nacionais e estrangeiros.

Os espólios revelam-se extremamente importantes para os investigadores na hora de estudar a vida e a obra dos autores que já não estão entre nós. Se esta afirmação é em geral verdadeira para todos os autores, muito mais a é quando se trata de um autor que faleceu jovem e com uma obra ainda em desenvolvimento. Nos espólios poder-se-ão descobrir elementos que ajudam a compreender melhor a obra publicada, ou a alargar o conhecimento sobre aquilo que ficou por fazer, ou a conhecer os tópicos que o autor não teve eventualmente tempo para desenvolver, ou os textos inéditos que ele pensava publicar… Um pouco de tudo isto se descobriu no espólio de Edmundo Curvelo: projectos editoriais que ele não teve tempo de concretizar, textos inéditos que revelam os cuidados pedagógicos que tinha na hora do trabalho com os seus alunos, apontamentos bibliográficos, relatórios, correspondência, interesses e registos literários explorados pelo autor e desconhecidos do público: por exemplo, a escrita de poesia (quem imaginaria que um lógico se dedicaria a escrever poemas, mas Vieira de Almeida também o fez!), e ainda livros, separatas de artigos seus e de outros autores. Como se vê, a diversidade de documentos é imensa e rica para o conhecimento e avaliação da obra do filósofo alentejano. O trabalho de Manuel Curado, professor na Universidade do Minho, e José António Alves, investigador também na Universidado do Minho, dá-nos conta de todos estes elementos.

Nos espólios, um dos elementos extretamente importante é sempre a correspondência. O livro edita a correspondência entre Edmundo Curvelo e Noémia Cruz, com quem casou, com Joaquim de Carvalho, ilustre professor de Coimbra, historiador da filosofia e diretor da Revista Filosófica, com Delfim Santos, filósofo e pedagogo português, e com alguns autores estrangeiros, nomeadamente Alonzo Church, Stephen Kiss, René Poirier, William Montague.

De todo o epistolário, aquele que consideramos mais significativo é o que o autor alentejano manteve com Delfim Santos. Este diálogo está longe de ser um diálogo circunstancial e sobretudo os dois filósofos não se coibem de expressar as suas divergências, permitindo ao leitor compreender melhor os pontos de vista filosóficos de cada um deles em relação à psicologia. Indubitavelmente um diálogo a não perder e a não deixar de explorar por todos os interessados na cultura filosófica portuguesa.

Mourão Jorge

Sociedade Portuguesa de Filosofia

george monteiro sobre a réplica a arnaldo saraiva

Dear Felipe Delfim Santos,

Only a few minutes ago was I able to get to your “answer” to Arnaldo Saraiva that you so thoughtfully forwarded to me. I thank you for it. I was happy to see that you rightfully defend yourself without descending to ad hominem attack.

After all these years following the publication of his piece on Sena’s aborted career as a naval cadet, Arnaldo is still angry, still trying to defend the position he assumed in that article. It was Ezra Pound, I think, who said that anger makes for good prose. Perhaps, but it also makes, sometimes, for seething comments better left unsaid. Isn’t is strange how good scholarship (and the book in question is an example of exemplary scholarship) seems to evoke such attack?

Thanks you again for sharing your piece with me.

Best, George