7 de abril – Palácio da Independência, Sala Antão de Almada
14.30 – A correspondência entre Amorim de Carvalho e Delfim Santos
Incluída nas comemorações do Dia do Patrono da Escola E.B. 2,3 Prof. Delfim Santos, em Lisboa, decorreu hoje, 6 de novembro de 2014, dia do 107º aniversário do Pedagogo, a apresentação da obra de Delfim Santos, Inéditos Pedagógicos (1932-1966), editada pela própria Escola em celebração do 80º Aniversário da entrada de Delfim Santos na carreira de docente liceal.
O lançamento esteve a cargo de Filipe Santos, convidado pela Escola para esse efeito. O orador recordou os principais passos da carreira docente de Delfim Santos e apresentou os 10 textos que compõem a obra, aludindo a algumas questões que neles são tratados, tanto as inatuais, que nos revelam um mundo já passado – como por exemplo a querela entre o ensino clássico e o ensino moderno, em que o autor toma partido contra os cinco anos de latim obrigatório dos antigos currícula – quanto as atuais e atualíssimas, como o debate em torno da utilidade do caderno diário, a necessidade de uma nova relação entre a família e a escola fundada numa nova família, a autoeducação, a formação superior dos pedagogos, a escola ideal, etc.
“A instrução primária – escrevia Delfim Santos nos alvores da década de 1930 – é talvez aquela que maior desejo de reforma nos merece: porque é de todas a pior e porque os seus mártires não sabem criar mecanismos de defesa contra a incompreensão dos adultos”.
Bem fundamentadas, as posições de Delfim Santos apontam para uma reforma pedagógica não conteudística mas sim de mentalidades, em resposta à eterna e permanente crise em que a Escola vive, espelho das opções e hesitações da sociedade em que ela se insere. Manifesta a sua preferência por uma Escola viva, inserida no seu tempo e orientada mais ao futuro do que ao passado; que respeite a cultura nacional; que não imponha conhecimento vindo do exterior, mas que seja antes um suscitador de interesses radicados no próprio aluno, gerando nele uma compreensão em profundidade, crítica e autocrítica.
No final foi servido um porto de honra.
“Até ao final dos anos quarenta (…) haverá apenas a destacar, entre o escasso número de artigos publicados até então, a circunstância de já em 1933 haver sido publicado o primeiro ensaio de Delfim Santos em que o filósofo dinamarquês surge como uma das figuras de referência. Autor de vasta bibliografia em que predomina a exposição de um pensamento existencial marcado pela fenomenologia e pela influência de N. Hartmann e M. Heidegger, Delfim Santos publicaria até ao final da sua vida outros sete artigos nos quais aborda o pensamento de Kierkegaard, sem que nenhum deles seja, contudo, de exclusiva incidência em Kierkegaard; porém, nos momentos em que com maior ou menor ênfase menciona o pensamento do filósofo, Delfim Santos atribui-lhe um papel relevante no desenvolvimento temático de cada um desses artigos, com especial incidência em tópicos como a ironia, a subjetividade, a angústia, o desespero, a influência em M. Heidegger e em E. Husserl, e nos existencialistas franceses”.
Elisabete de Sousa, Kierkegaard em Portugal, Um Dinamarquês Universal – Søren Kierkegaard, Lisboa: BNP, 10.
Sobre este resumo da relação Kierkegaard / Delfim Santos haveria a observar o seguinte: a primeira chamada de atenção de Delfim Santos para Kierkegaard sai na revista Presença em 1933 e reporta-se, sem o nomear, ao Diário de um Sedutor como exercício de análise experimental e fria do amor (que serviu durante a sessão inaugural da mostra de ontem para interessantes aproximações ao caso Ofélia de F. Pessoa). Tinha então Delfim Santos 26 anos e ainda não viajara nem sabia alemão, algo que só acontecerá em 1935, pelo que é possível que tenha usado a tradução portuguesa do Diário de 1911, de Mário de Alemquer, ou outra francesa.
Entre este texto e o ano de 1943, a que pertence “O Valor da Ironia” – segundo texto da mostra – foi esquecida a tese de doutoramento Conhecimento e Realidade, Lisboa: Imprensa Portuguesa, 1940, onde existem 3 observações importantes sobre Kierkegaard: terá sido esta a primeira tese de doutoramento portuguesa a referir-se à sua obra?
Por fim, no parágrafo de Elisabete de Sousa falta ainda a conferência de Delfim Santos sobre Kierkegaard, que está atestada documentalmente em carta de que lhe facultei cópia e que terá sido a primeira que em Portugal teve por tema o pensador dinamarquês. Um texto a recuperar.
Este pioneirismo recorrente de Delfim Santos deve-se à sua dupla inserção: mental e culturalmente viveu num tempo europeu que ele conhecera nas fontes, junto aos grandes pensadores com quem convivera e trabalhara; porém, vivencialmente debatia-se com um meio cultural português estagnado e muito desfasado do que entretanto acontecia na Filosofia, na Ciência, na Pedagogia por esse mundo fora. O eterno preço a pagar pela periferia lusitana.
Quanto ao “pensamento existencial” de Delfim Santos: seria melhor escrever que foi expositor das correntes da filosofia da Existência (e não só do Existencialismo à la mode nos anos 50) por solicitação do seu tempo e não por adesão própria, como ele mesmo teve ocasião de o dizer. Acontece que quando Delfim Santos expunha Platão davam-no como platónico, se discorria sobre Aristóteles era peripatético, se falava de Séneca já o tinham por estoico, se sobre Montaigne era cético, e assim por diante, isso se devendo, conforme os testemunhos de seus alunos, mais ao poder de sedução da sua palavra e ao seu talento de professor do que a uma qualquer adscrição que não procurava, pois a veria como limitativa da liberdade do pensamento.
Domingos Monteiro, numa alocução na Academia das Ciências, descreveu bem essa ilusão criada no público e pelo público: “Dada a variedade dos seus interesses, a simpatia por vezes manifestada por doutrinas diversas e até opostas, Delfim Santos foi sucessivamente apodado – ele que detestava os rótulos – de platónico, aristotélico, hegeliano, bergsonista, existencialista, fenomenologista e não sei que mais. É possível que em determinados momentos da sua vida ele tenha sido cada uma destas coisas, mas o que ele foi sempre, e é isto que constitui a sua verdadeira grandeza, foi ele próprio”.