Dialectologia
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Algumas lições
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Ensino intercult. do port.

Açores

— Munto péixe, Joaquim? — perguntou o João da Cezilha a um Iatagão que entrara com uma botija na mão.
 — Andar...! Nem rasto! Botámos o inchelavar dua’ vezes... Sequinho, sequinho que nem saco de café dipois do carolo espremido! O mê rapaz — dizia o Joaquim, vibrando, à picarota, os seus rr de ponta de língua — bem apuntava prò saco da rede: "São prumbetas, mê pai!" Q'al prumbetas! Ûa manchiinha de chicharro... ûa petinga...!

Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal.

Alentejo

UMA MÃE ALENTEJANA ESCREVE PARA O FILHO:
Mê crídu filhu, escrêvuti algumas linhas, pra sabêris que tou viva.Tôti a escrevêri devagári pôs ê’sei que tu nâ sabes lêri depressa. Nâ vás conheceri a casa condo cá voltáris, pôs agenti mudámexe. Acerca du tê pai ele arranjô um boum impregu, teim 500 homes debaxo dêli, pôs corta erva aqui nu cemitériu. Havia uma máquina de lavári na casa nova condo agenti se modô, ma nâ trabalhava munt'beim, a semana passada pus lá 14 camisas, puxi o cordéli, e nunca más as vi. A tua mana Maria teve um bébéi esta semána mas ê nâ consegui sabêri se será moçu ó moça, pur isso nâ sê sés tiu ó tia. O tê tiu Patríciu afogôssi a semana passada num depóseto de vinhu da adêga comprativa, mêa dúzia de companheros tentaram salválu, mas u raiu do home, dêle uma safanada, e nâ u deram de lá tiradu. O corpu foi quêmado mas levou 3 dias prápagari u encêndio. Fui ó dótôri na quinta fêra, o tê pai foi cumigo ó dótôri: pôsmum tubu ná boca, i disse pra nâ falári duránte 10 minutus. O tê pai ofrecêsse logo p'ra comprári u tubu ó dótôri. Recebêmos carta do cangalhêro, ele dezia que se u últimu pagaménto do entêrru da tua avóu nâ fôr fêto nu prázu dôto dias, que nus devólvi a tua avóu. Olha nâ t’esqueças de bebêris o lêti todas as nôtis antes de d’enterráris os chavelhus na fronha de bombazim quê te mandeí. Um bêjo da tua crida maim, Jôquina Chaparru.

Da internet

África do Sul

Eu tive um argumento à porta da corte com o meu principal, e por isso cheguei atrasado ao nosso apontamento. Mas você pode vir à minha flat. Segue sempre em frente, passa quatro robots e quando vir uma fença amarela parca o carro. Eu só tenho que ir comprar umas medicinas, mas a minha senhora é professora na escola alta e está a marcar uns exercícios. Se não puder vir, ok. Eu depois chamo-o para trás.

(trad.: Eu tive uma discussão à porta do tribunal com o meu director e por isso cheguei atrasado ao nosso encontro. Mas você pode vir ao meu apartamento. Segue sempre em frente, passa quatro semáforos e quando vir uma cerca amarela estaciona o carro. Eu só tenho que ir comprar uns remédios, mas a minha mulher é professora do liceu e está a corrigir uns exercícios. Se não puder vir, tudo bem. Eu depois telefono-lhe).

Vasco Moreira, Em Português, Porto s/d, p. 109.

Angola

Nas janelas muinta gente:
ai bô viaje
adeujo homéé
n'ganas bonitas
quitandeiras de Ienço encarnado
levam cana no Luanda pra vender (...)

António Jacinto, Castigo prò Comboio Malandro

A LÍNGUA PORTUGUESA ESTÁ A MORRER EM ANGOLA?

    A língua portuguesa está a "baicar" (morrer) em Angola? Para uns a resposta é sim. Para outros está a ser enriquecida com novos termos provenientes da gíria e dos dialectos locais.
    Seja como for, já se fala em Angola de forma incompreensível para quem não domine a gíria empregue principalmente pelos jovens.
    Apesar de ter muitos "kambas" (amigos) em Angola, o jornalista viu-se a "palar" (a lutar) para perceber o que muitos "avilos" (amigos) lhe diziam, por isso "chichiou boé" (demorou muito) a entendê-los.
   
Como estava "boéréré" de sol (imenso), o "cota" (mais velho em sentido carinhoso e não cronológico) "envergou" umas "mauanas" (óculos) para não dar nenhuma "baçula" (queda).
Assim se fala entre a juventude em Luanda. Utilizando exaustivamente a gíria local, ainda mais impenetrável seria a linguagem, o que decerto vedaria a possibilidade de entendimento ao português médio.
O "mano Sérgio" viu que estava a "desconseguir" (não conseguir), apesar de todo o seu "bongue" (charme), "bumbar" (trabalhar) já que era para isso que lá estava.
Como não tinha "kibutos" (mantimentos) para oferecer, alguns "madiés" (tipos) olharam-no com cara de lhe quererem "kafrikar" (tirar) o que levava e chegou a pensar que tinha de andar ao "chuco" (porrada) para conseguir "bazar" (fugir, ir embora) numa "dinguela" (boleia).
Apesar de ter entalado o dedo e de lhe ter doído "paka" (bastante) e pensando que o iam bubular (matar) ainda teve tempo de olhar para as "duias" ou "garinas" (raparigas) "cheio de póster" (a fazer charme), mas "desconseguiu" de "bumbular" (fazer amor) com elas.
Os "cotas" mais "malaicos" (saloios) disseram que ele era muito "miungueiro' (mulherengo) e que parecia um "cuco" (cubano). Os "sóvias" (soviéticos) ou "cubilhas" (soviéticos) são quase todos "bambis" (feios), disseram-lhe.
   
Durante o tempo em que lá esteve, o "mano Sérgio" não viu nenhuma "kuarra" (prostituta) na rua e não pode continuar esta história porque a generalidade das palavras de gíria que recolheu dizem respeito à "shoboita" ou "chuchuta" (sexo feminino) e portanto decidiu que o melhor era parar por aqui.
   

Sérgio Soares

Consulte-se igualmente Vocabulário Kimbundu-Português de Luanda.

Brasil

Mas António Balduíno atalhou:
— Nada disso... Vou mandar o Gordo Iá... Quem sabe se eles não tão passando fome... Se eles quiser ficar só com o pedaço da Baixa dos Sapateiros, eu deixo eles em paz...
O Sem Dentes riu:
— Parece que vocé tá com medo, Baldo...

Jorge Amado, Jubiabá

Consulte-se igualmente Dicionário Português-Brasileiro, Schifaizfavoire e Lusitol e Brasilol.

Cabo Verde

Coitado quem dixá sê terra,
Sêl dixâ nél sê coraçom;
Él embarcâ pa terra longe
Sim sabê si al birâ, ó nam!

Pedro Cardoso, Crioulo do Fogo

Madeira

— O senhor até parece caixeiro! E se é, bom proveito Ihe faça, mei nã seja demoino fazendo descontos.
— Boa tarde!
— Baua viaje.
Quando ele se despediu na revolta do caminho, entre si, comentaram:
— Júlia, o peste do home tem cara de judeu.

Horácio Bento, Lágrimas correndo Mundo

 

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Actualizado a 30 Jan 2013