Delfim Santos (1907-1966)

Resumo biográfico

Nasceu no Porto em 06.11.1907 em ambiente modesto e marcado pelo infortúnio: na sua juventude sobreveio a morte do pai e a necessidade de trabalhar na oficina familiar, não renunciando porém a estudar à noite na Escola Industrial. Persistente e esforçado, terminou os cursos complementares de Letras e de Ciências em 1927, matriculando-se nesse ano na secção de Ciências Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras do Porto. Concluiu a licenciatura em 1931 com elevadas classificações, tendo sido aluno de Leonardo Coimbra, Newton de Macedo, Aarão de Lacerda, Teixeira Rego e de L. Cardim, de quem se tornaria amigo. A sua vocação interdisciplinar e a sua ambição universalista levam-no a frequentar cadeiras de Filologia Clássica e de Ciências, acabando por dominar o Grego e a Matemática. O seu espírito interveniente levou-o a representar os alunos das duas Faculdades (Letras e Ciências) no Senado Universitário.

Em 1932 iniciou uma carreira de professor liceal e em 1935-1937 é-lhe concedida uma bolsa da Junta de Educação Nacional para estudar em Viena com os grandes nomes do famoso Círculo de Viena. Inscreveu-se nos seminários de M. Schlick que concluiu com distinção – cf. Situação valorativa do Positivismo, relatório de 1938 no qual analisou o neopositivismo lógico desta Escola. Em Berlim será marcado pela ontofenomenologia de Nicolai Hartmann e segue ainda os cursos de Eduard Spranger, um dos grandes teorizadores da Pedagogia. Parte depois para Londres onde toma um decisivo contacto com a Aristotelian Society e em seguida com o British Institute of Philosophy, em Cambridge. Tendo sido nomeado leitor da Universidade de Berlim, será no seminário de N. Hartmann que prosseguirá os seus trabalhos de doutoramento e aprofundará o seu conhecimento do pensamento de Heidegger. Na tese que submeterá em 1940 à Universidade de Coimbra, com o título Conhecimento e realidade, Delfim Santos versará os problemas de metafísica do conhecimento, da epistemologia e do existencialismo. Partindo das questões «como é possível conhecer?» e «como articular realidade e conhecimento?» conclui confrontando o pensamento alemão, especialmente o fenomenológico, com o modelo aristotélico. Viverá entre os dois países até 1942, ano do seu regresso definitivo a Portugal.

Em 1943 ingressa na Faculdade de Letras de Lisboa como primeiro assistente de Ciências Pedagógicas, recebendo as insígnias doutorais em 1944, pela mão de Cabral de Moncada, em Coimbra. Leciona ‘História da Educação’ e ‘História da Filosofia Antiga e Moral’. Em 1948, após concurso perante Oliveira Guimarães e Joaquim de Carvalho, passa a professor extraordinário de Ciências Pedagógicas. Sobe à cátedra em 1950, tendo regido as seguintes disciplinas no curso de ciências pedagógicas: ‘História da Educação’ (1942-1943 a 1965-1966), ‘Pedagogia e Didática’ (1947-1948 a 1965-1966) e ‘Psicologia Escolar e Medidas Mentais’ (1958-1959).

Em 1957 é incumbido pelo Ministério da Educação Nacional de visitar os institutos de educação de Madrid, Paris, Bruxelas, Londres, Frankfurt, Heidelberga, Roma e Viena, a fim de confrontar planos, programas e estratégias pedagógicas de formação de docentes com vista à criação do tão esperado Instituto Superior de Educação. Tendo sido nomeado professor de Psicologia e Sociologia no Instituto de Altos Estudos Militares em 1955, só três anos depois ocupará o cargo, desempenhando-o até 1962.

Participa, ao longo da sua carreira docente, em inúmeros congressos internacionais de Filosofia, Pedagogia e Psicologia. Em 1959, é eleito representante do Conselho Escolar da Faculdade de Letras de Lisboa ao Senado Universitário. Em 1960 dá um Curso de Pedagogia integrado no Curso de Férias no Ultramar Português, que permanece recordado pela extraordinária influência que teve mercê do sucesso das intervenções de Delfim Santos. Ainda em 1960, Júlio Dantas, Augusto de Castro, Reynaldo Santos e Aquilino Ribeiro redigem uma proposta-homenagem para sócio-correspondente da Academia das Ciências na qual é destacado o seu caráter voluntário, universalista e atento à juventude. Em 1961 ingressa no Conselho Consultivo da Fundação Calouste Gulbenkian, apresentando, no ano seguinte, um anteprojeto de criação de um Centro de Investigação Pedagógica, que passará a dirigir desde 1963. Morreu em 1966 como precursor incompreendido e cerceado pela sua época, sem ter visto aplicada na educação portuguesa a obra renovadora e prospetiva que incansavelmente expusera e fundamentara.

(síntese de diversas notas biográficas)

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